sábado, 30 de agosto de 2014

O que eu sentia.

Os sintomas que eu sentia e ainda sinto porém, fui aprendendo a controlar eram, dor de cabeça, enjoos, mãos frias, quentura nas costas, boca seca, coração batendo mais rápido, respiração ofegante, pés e pernas tremendo sem parar e muito sono. Porém existia um medo e ainda existe um que não é físico, é um medo de estar e ficar sozinha, mas porque desse medo? Hoje eu talvez consiga associar um pouco, durante a minha viagem para a Disney, presenciei algumas meninas desmaiando por conta do calor, essas cenas ficaram muito forte na minha mente e eu acabei associando "esse desmaio" com o ficar sozinha em casa ou em qualquer outro lugar. Minha mente pensa da seguinte forma: - E se eu desmaiar aqui sozinha em casa? Quem vai me socorrer? E se eu começar a sentir todos esses sintomas, quem vai me ajudar a passar? A falta de ar por conta do pânico é horrível, e se me faltar ar?
Esses medos foram tomando conta de mim de uma forma que eu não conseguia controlar, na época que eu tive isso não se falava muito em PSIQUIATRIA, imagina ir no psiquiatra era para louco, e eu não estava louca!!! Mas minha mãe não conseguia achar uma saída a não ser me levar em um. Me lembro perfeitamente da minha primeira consulta. Não conseguia me expressar direito, então minha mãe tomou liberdade e contou tudo ao psiquiatra, na época eu não me lembro o nome do remédio que ele me dava, mas me lembro que eram alguns comprimidos rosinhas e que eu retirava no próprio consultório, não precisa comprar em farmácia.
Bem, eu comecei a tomar e comecei a perceber algumas diferenças, as vezes me sentia bem e as vezes não. Quando eu me sentia bem eu fica na frente da TV comendo muito, mas era tipo muito mesmo. E quando eu não me sentia bem eu também comia. Sempre fui mais gordinha, minha estrutura sempre foi de uma menina mais cheinha, mas da forma como eu estava comendo não era. Conseguia me soltar um pouco mais, mas mesmo assim os sintomas apareciam. Comecei a associar o medo do desmaio com a questão do comer, bem se eu não comer eu vou desmaiar, então para que isso não me ocorra, eu comia de 30 em 30 minutos, eu precisa me sentir "cheia" para me sentir bem.
Me lembro de várias vezes em que saímos para jantar e antes de sair eu comia uma banana ou tomava um copão de iogurte, pois se passasse de 30 minutos eu já ia sentir os sintomas ou iria desmaiar. Não, eu nunca desmaiei na minha vida, não sei quais são os sintomas e as sensações, mas eu sabia que aquilo eu não queria sentir.
Essa obsessão por comida foi tão grande, que eu cheguei a acordar de madrugada e atacar a geladeira. Comer mesmo, comida. Essa questão ficou tão forte, que minha mãe começou a perceber e a me dar bronca por estar fazendo isso, e ela começou a me proibir de ir na cozinha de madrugada, tinha vezes que ela acordava e brigava comigo, então para poder "engana-la" eu comecei a levar comida para o meu quarto e escondia embaixo do meu travesseiro. Até que um dia, ela me pegou comendo uma pera e me fez levantar e entregar pra ela, ficamos a noite inteira acordada, uma olhando pra outra, sem dizer nada. Senti naquela hora, que ela queria me dizer que eu não precisava daquilo durante a noite, e que eu não iria desmaiar se eu não comesse aquela pera.
Durante minhas visitas a esse psiquiatra, minha mãe chegou a questiona-lo sobre a ganha de peso, e ele dizia que não era por conta do remédio, que eu teria que fazer exercícios e não pensar em comida. Como que eu podia fazer isso se meu corpo pedia comida? Se minha mente pedia comida?
Junto com as visitas ao psiquiatra, comecei a ir em uma psicóloga, ela seguia a linha psicologia junguiana, para quem não conhece essa linha, Jung via o inconsciente não apenas como um repositório das memórias e das pulsões reprimidas, mas também como um sistema passado de geração em geração, vivo em constante atividade, contendo todo o esquecido e também neoformações criativas organizadas segundo funções coletivas e herdadas.
As minhas terapias eram 1 vezes por semana, e quando chegava lá, eu contava tudo o que se passava comigo, falava dos meus sintomas, dos meus medos, das aflições, do meu dia a dia, do meu futuro, de tudo eu falava. A forma de como as respostas viam sobre a teria eram no decorrer do meu dia a dia. Tinham sessões que eu queria brincar de boneca, de casinha, de fazer comidinhas, e esses momentos eram só meus, ali eu colocava todas as minhas vontades para fora, gostava de desenhar, de pintar, de escrever, de imaginar, de fantasiar. Eu realmente me libertava, me sentia bem, e quando chegava em casa, queria dar continuidade aquilo, e foi ai que aos poucos eu fui me libertando.
Um dia minha mãe ia na padaria e eu ficava sozinha, outro dia no supermercado, outro dia ia colocar gasolina e assim foi indo, mas e os sintomas? Sim eu sentia o sintomas, mas foi ai que eu aprendi a controlar, quando sentia a respiração ofegante, eu tentava ouvir minha respiração e controlar, respirava fundo e soltava devagar, a quentura nas costas eu tentava foca-la em outras coisas, como ouvir uma música e prestar atenção na letra, ou ver um filme e prestar atenção na história. Eu apenas precisava tirar o foco dos meus sentimentos e me focar em outras coisas.

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